Do interior de São Paulo aos Estados Unidos uma trajetória marcada pela adaptação

Há quase três décadas nos EUA, Graziela Neves construiu uma carreira na saúde e manteve viva sua identidade brasileira

Nos anos 1990, deixar o Brasil ainda era um sonho distante para a maioria dos jovens. As passagens eram caras, o acesso à informação era limitado e a ideia de “morar fora” soava quase como uma aventura reservada a poucos. Foi nesse cenário que Graziela Neves, formada em Administração, decidiu embarcar para os Estados Unidos, movida não por ambição financeira, mas por curiosidade.

“Eu sempre tive vontade de sair do Brasil e conhecer outras culturas”, lembra. “Na época, poucas pessoas se aventuravam fora do país, a não ser as que tinham muito dinheiro. Comecei a contatar conhecidos que moravam nos Estados Unidos e decidi ficar um ano para aprender bem a língua. Eu sabia que isso faria diferença no meu currículo.”

O plano era temporário, mas a experiência mudou o rumo de sua vida. Ao se misturar com os americanos, ela descobriu novas possibilidades, inclusive profissionais. “A transição para a área da saúde se deu por uma necessidade. Nunca achei que fosse conseguir me interessar por essa área, mas percebi que seria uma profissão sempre em grande demanda. Estudei por dois anos e hoje sou uma profissional muito bem-sucedida. Sempre tive trabalho e sou feliz com a minha decisão”, afirma. 

A curiosidade que a levou a cruzar fronteiras também moldou a maneira como ela se adaptou. “As pessoas com quem trabalho apreciam o fato de eu estar sempre brincando, trazendo leveza para um ambiente que pode ser estressante. Respeito às regras e nunca tive problemas, então foi bem fácil para mim.”

Trabalhar para viver, ou viver para trabalhar?

Mesmo com a adaptação tranquila, Graziela explica que as diferenças culturais eram inevitáveis. “A língua é um dos maiores desafios. Por melhor que se fale o inglês, sempre tem palavras ou costumes que não sabemos, porque não crescemos nesse ambiente. Às vezes não entendo uma piada, alguma brincadeira, mas eu nunca me importei com isso.”

O contraste entre as rotinas brasileira e americana também se tornou evidente. “O americano é muito voltado para o trabalho, principalmente a minha geração. Nós vivíamos para o trabalho. Já o brasileiro tem mais equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, e não se cobra tanto. Aqui, é quase um pecado dizer que você precisa de mais tempo para descansar”, observou. 

O peso do sotaque

Mesmo depois de tantos anos, ela ainda percebe resquícios de julgamento. “O fato de eu ter um sotaque de imigrante às vezes fazia as pessoas olharem com desconfiança. Será que ela sabe o que está fazendo? Quando era mais jovem, isso acontecia mais. Hoje, com a experiência, não sinto tanto.”

Mas nem tudo foi simples. O clima político também influenciou diretamente sua vivência. “Quando o presidente Trump foi eleito, em 2017, as próprias colegas de trabalho mudaram o comportamento em relação a mim. Coisas sutis, mas eu percebi muito essa mudança. Isso me magoou e me decepcionou. Eu nunca havia sentido isso antes em todos os anos nos Estados Unidos.”

Ainda assim, ela aprendeu a não deixar o preconceito definir quem é. “Eu sempre pensei que o problema está no outro, não em mim. Faço o meu melhor, e sei do meu valor.”

Aprendizados entre fronteiras

Hoje, depois de quase três décadas vivendo fora, ela reflete sobre o que o caminho ensinou. “Aprendi que a vida é uma eterna adaptação e readaptação. Não importa a idade ou o lugar, nós sempre podemos desenvolver habilidades novas.”

Ao mesmo tempo, manter as raízes foi essencial, apesar do desafio de manter a identidade brasileira. “Foi difícil continuar sendo brasileira num ambiente em que eu me encaixei tão bem”, confessa. 

Entre os dois países, ela encontrou um ponto de equilíbrio. “Se a gente consegue misturar o melhor da nossa cultura com o melhor daqui, podemos nos tornar pessoas muito melhores. É interessante manter a alegria e a leveza do brasileiro e misturar com as boas características da cultura americana. Mas brasileira eu nunca vou deixar de ser. Eu gosto de ouvir músicas brasileiras, de fazer minha comida, de manter contato com os amigos e a família. Isso me lembra quem eu sou.”

“Se a gente consegue misturar o melhor da nossa cultura com o melhor daqui, podemos nos tornar pessoas muito melhores. É interessante manter a alegria e a leveza do brasileiro e misturar com as boas características da cultura americana. As coisas acontecem naturalmente — mas brasileira eu nunca vou deixar de ser.”

Profissional da saúde, Graziela Neves deixou o Brasil nos anos 1990 movida pela curiosidade e construiu nos Estados Unidos uma trajetória marcada pela adaptação e pela identidade brasileira. Foto: Arquivo pessoal 

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